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Mundo das ComunicaçõesSem redes não há soberania: Europa precisa de infraestruturas robustas e escala para competir na era da IA

Sem redes não há soberania: Europa precisa de infraestruturas robustas e escala para competir na era da IA

A soberania digital europeia depende cada vez mais de infraestruturas robustas e de escala para acompanhar a evolução da IA, como destacado no palco da 35ª edição do Congresso da APDC.

Em linha com a mensagem deixada por António Gameiro Marques, presidente desta edição do Congresso, Sérgio Catalão, diretor-geral da Nokia Portugal, realça que “a soberania não é isolamento”.

“É a capacidade de poder decidir, de desenvolver tecnologias críticas, mas também a capacidade de fazer parcerias equilibradas com ecossistemas que, de alguma forma, têm a mesma visão e valores que os europeus têm”, defende.

Segundo o responsável, a Europa “tem de assumir claramente que as infraestruturas digitais críticas, como a conectividade, são absolutamente fundamentais para a nossa soberania”.

Sem redes resilientes, seguras e de alta performance não há economia digital, não há serviços públicos digitais e, numa palavra, não há soberania

A Europa quer liderar na área da IA, mas, como alerta Sérgio Catalão, tal não será possível enquanto não houver uma liderança nas infraestruturas e tecnologias críticas.

Tendo em conta que as redes sempre foram desenhadas com base no workload dominante, a próxima geração de infraestrutura será moldada pela IA, exigindo não só adaptação aos padrões que a tecnologia exige, mas também escala e investimento, num modelo cada vez mais dependente de consolidação e inovação industrial.

Aqui, iniciativas como as gigafábricas de IA que fazem parte dos planos da Europa vão ter de contar com redes de elevadas capacidades, de modo a assegurar uma AI grid competente, afirma o responsável.

Nesse sentido, Bernardo Silva, chefe do gabinete do CEO do Banco Português de Fomento, aponta para o papel que uma gigafábrica de IA pode ter, não só para Portugal como no contexto europeu, destacando a importância de não depender das grandes empresas norte-americanas desta área, também conhecidas como hyperscalers.

Num contexto cada vez mais dominado por IA, as redes de comunicação têm de se conseguir transformar, realçou Juan Olivera Urquijo, Country Manager da Ericsson Portugal. Com o aumento exponencial de dados, é necessária uma maior capacidade de investimento, bem como a consolidação do sector, com a escala a ser determinante para garantir desempenho e eficiência.

A resiliência das redes assume também um papel fulcral e, como destacado pelo responsável, eventos como o apagão ibérico de 2025, bem como o “comboio” de tempestades de afetou Portugal no ano passado, demonstram que não estamos a ter o foco necessário nas infraestruturas críticas que sustentam as comunicações.

Embora a Ericsson Portugal encare com otimismo a proposta apresentada ontem para a evolução do SIRESP, Juan Olivera Urquijo defende que é preciso ir mais longe. A par de um plano de longo prazo para o sistema nacional de comunicações críticas, mas também para as redes públicas que são a “espinha dorsal da nossa sociedade”.

Embora a Europa tenha liderado outrora na área das tecnologias eletrónicas móveis, consideradas há 30 anos como as tecnologias de fronteira, “a realidade em 2026 é bastante diferente”, afirma António Coimbra, presidente da APRITEL.

Num momento em que a infraestrutura de telecomunicações passou a ser um elemento central para a competitividade digital, a “Europa claramente estagnou no investimento”, defende o responsável.

De acordo com os dados partilhados, o investimento nas TELCO regista reduções de 2-3% ao ano desde 2022. Além disso, de uma forma mais alargada, no investimento em I&D industrial a Europa representa apenas 18,7% do investimento total mundial, quando os Estados Unidos representam 42,3%.

Nas comunicações eletrónicas, o responsável aponta para um “desinvestimento estrutural” que a explica o atraso europeu na corrida às novas tecnologias. “E há uma clara explicação: se olharmos para a receita média por cliente, nos Estados Unidos é três vezes superior ao da Europa”, detalha, defendendo que, na Europa, a maior concorrência e a “obsessão excessiva dos preços baixos” acabam por limitar o investimento no sector.

Embora a Europa ainda acompanhe a evolução no que respeita à fibra ou ao 5G, o responsável indica que há um desfasamento nas tecnologias de conectividade mais avançadas, como o 5G Standalone, algo que é essencial para suportar aplicações de nova geração. “E se olharmos para a IA, o ponto mais disruptivo que estamos a viver, há uma diferença abissal”, enfatiza.

Mas, para António Coimbra, a Europa ainda vai a tempo de recuperar, o que vai exigir uma mudança rápida de prioridades, incluindo uma regulação mais orientada para o investimento e mais célere nas decisões, maior escala através da consolidação do setor, bem como uma maior simetria de obrigações entre operadores e hyperscalers que usam as redes.

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