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Os CTT prosseguem num processo de transformação profunda

Para o CEO dos Correios, João Bento, garantir o funcionamento do Serviço Postal Universal é um dos maiores desafios de uma empresa que se mantém como “uma startup com 500 anos”. Ao SAPO, antecipando o Café de CEO promovido pela Associação BRP, explica ainda como a IA está a revolucionar o negócio.

Sendo hoje “muito mais um operador logístico de comércio eletrónico” do que uma organização que distribui correio, como durante a maior parte dos seus 500 anos de vida, em que a maior parte da comunicação se fazia por carta, os CTT transformaram-se e têm hoje a ambição assumida de “liderança ibérica em 2028”.

Longe vão os tempos em que o Rei D. Manuel I assinou (a 6 de novembro de 1520), em Évora, a carta real que nomeava Luís Homem como correio-mor de Portugal, inaugurando uma organização que tinha por missão servir as comunidades locais. Mas se há algo que os CTT mantiveram sempre no ADN, e que bem justifica a sua sobrevivência e relevância ao longo dos séculos, é a capacidade de se adaptar às vontades e necessidades das pessoas; seja a diversificar para áreas como a financeira e de pagamentos seja a abrir-se ao serviço logístico como parceiro indispensável numa era de e-commerce, os CTT funcionam como “uma startup com 500 anos”.

Isso ajudará a explicar que, em 2024, o negócio de Expresso e Encomendas tenha atingido um marco histórico: “mais de 141 milhões de objetos entregues e receitas que ultrapassaram, de forma estrutural, as do correio tradicional”. Quem o confirma é João Bento, CEO dos CTT,  antecipando mais um Café de CEO, uma iniciativa da Associação Business Roundtable Portugal (ABRP) de que o SAPO é parceiro e de que o gestor é o convidado. Nesta sexta-feira, o gestor irá partilhar a sua visão, no âmbito do desafio da ABRP de partilhar conhecimento e boas práticas, impulsionando as PME portuguesas a seguirem o caminho de uma nova geração de líderes empresariais, mais próximos, mais humanos e mais envolvidos com a sociedade, que têm vindo a afirmar-se numa liderança pelo exemplo, para se tornarem grandes e globais.

Numa era em que a IA, a digitalização e a automação são “desafios e oportunidades para empresas de todas as dimensões”, João Bento reconhece, nesta entrevista de antecipação ao SAPO, a enorme relevância de  criar “espaços de partilha de experiências e de projetos, como é o caso dos Cafés de CEO 2.0, promovidos pelo BRP”. “Eles funcionam como um espaço de partilha informal e de geração de confiança entre líderes de PME e CEO de grandes empresas do BRP, centrado em temas que têm impacto direto no crescimento sustentável — como boa governance, talento, digitalização e internacionalização”, concretiza o CEO.

Já poucas cartas se enviam, mas algumas têm de ser garantidas (notificações, faturas, etc.) e é aos CTT que compete essa missão. Por outro lado, as encomendas globais geraram um novo negócio. Como é que os CTT encaram esta realidade, para mais num mercado concorrencial?

A queda do correio é uma realidade em todos os operadores postais do mundo, que têm empreendido uma transformação no seu perfil de negócio, apostando cada vez mais no potencial que o crescimento do comércio eletrónico. Nos CTT, temos orgulho em considerar que essa transformação foi bem-sucedida, considerando-nos, hoje, muito mais um operador logístico de comércio eletrónico, com a ambição de liderança ibérica em 2028, do que um mero operador postal.

Esta mudança, levada a cabo nos últimos anos, é confirmada pelos resultados obtidos. Em 2024, o negócio de Expresso e Encomendas atingiu um desempenho histórico: mais de 141 milhões de objetos entregues e receitas que ultrapassaram, de forma estrutural, as do correio tradicional. Foi a primeira vez que esta área inequivocamente o principal motor de crescimento e de rentabilidade do Grupo CTT  ultrapassou, em termos de proveitos, a área de correio e serviços. Este ponto de viragem não ocorreu por acaso: é o resultado de seis anos de investimento robusto em tecnologia, automação, capacidade operacional e melhoria da experiência do cliente.

É por aí que passa o futuro dos CTT?

O futuro dos CTT constrói‑se na logística, na última milha, no e‑commerce e na capacidade de oferecer soluções integradas aos clientes. Para concretizar esta estratégia, os CTT reforçaram substancialmente a sua presença em Espanha e criaram uma plataforma logística verdadeiramente ibérica. A aquisição da Cacesa, a maior empresa europeia de desalfandegamento de comércio eletrónico, permite oferecer soluções completas num contexto em que este é cada vez mais global e onde a rapidez no processo aduaneiro é crítica. E o passo seguinte foi decisivo: a parceria estratégica com a DHL, para construir a rede de recolha e entrega mais completa em Portugal e Espanha, com capacidade para entregar mais de um milhão de envios por dia, combinando o melhor dos dois operadores. Esta parceria acelera o crescimento, aumenta a fiabilidade do serviço e reforça a competitividade dos CTT.

É esta combinação, de um serviço postal universal que continua a ser garantido com compromisso, com uma aposta consistente na logística de comércio eletrónico, que permite encarar a transformação do setor não como uma ameaça, mas como uma oportunidade.

Apesar da queda do correio, há um núcleo de correspondência que continua a ser essencial para o funcionamento da economia e do Estado: notificações oficiais, comunicações judiciais, faturas, contratos e todo o correio transacional que suporta relações com clientes e o setor público.

Sobretudo num mercado concorrencial, como acontece na distribuição de encomendas?

Num mercado muito concorrencial, como é o das encomendas, os CTT têm-se diferenciado em vários campos, nomeadamente através da capilaridade da sua rede física, contando com a maior rede de retalho do país e onde a colocação de seguros, planos de saúde, soluções de proteção familiar e produtos de poupança do Estado, é muito relevante. Também a qualidade operacional, com o reforço da automação, a aposta em inovação (sendo os cacifos um excelente exemplo de tecnologia desenvolvida dentro dos CTT) e a abertura de novos centros operacionais para reforço da capacidade da operação logística e ainda a oferta de um serviço verdadeiramente end‑to‑end são exemplos da transformação empreendida pelos CTT.

Mas há ainda algum correio tradicional que tem de ser distribuído…

Apesar da queda do correio, há um núcleo de correspondência que continua a ser essencial para o funcionamento da economia e do Estado: notificações oficiais, comunicações judiciais, faturas, contratos e todo o correio transacional que suporta relações com clientes e o setor público. Os CTT mantêm também a prestação do Serviço Postal Universal (SPU) até 2028, garantindo que o serviço chega a todo o país. Não obstante a grande relevância do SPU e a importância de manter um serviço público de qualidade, é certo que o atual modelo de financiamento do SPU não será sustentável após 2028, devido à acentuada queda de volumes de correio, sendo necessário iniciar uma reflexão sobre novas formas de financiamento para o próximo contrato.

Mas na área de negócio de Correio e Serviços, os CTT têm uma presença relevante em várias outras áreas, que suportam a estratégia de diversificação do negócio que tem vindo a ser implementada ao longo dos últimos anos. Prestamos serviços especializados a empresas e entidades públicas, como gestão documental, gestão de call centers (através da Newspring), processamento de comunicações em grande escala, soluções digitais e serviços de proximidade que apoiam autarquias em processos de atendimento, notificações, fiscalidade e serviços de relação com o cidadão.

A nossa oferta específica para PME, que permite que os CTT sejam o principal parceiro deste segmento apoiando-as na sua presença nos canais digitais, é também um motivo de orgulho. Acreditamos na importância que a relação entre as grandes empresas e as PME pode desempenhar no desenvolvimento e crescimento destas últimas, em linha, aliás, com um dos principais propósitos do BRP. O objetivo da associação de apoiar a criação, o desenvolvimento e o ganho de escala das empresas nacionais, enfrentando um desafio estrutural da nossa economia: a falta de dimensão e o défice de produtividade, que continuam a limitar a capacidade de competir, inovar e internacionalizar.

O atual modelo de financiamento do SPU não será sustentável após 2028, devido à acentuada queda de volumes de correio, sendo necessário iniciar uma reflexão sobre novas formas de financiamento para o próximo contrato.

Enquanto empresa associada do BRP os CTT acreditam que a partilha de experiências e a criação de redes de colaboração são fatores decisivos para acelerar o crescimento e a competitividade das empresas em Portugal. Deixo ainda uma palavra sobre o Banco CTT, que é hoje uma peça fundamental neste percurso de diversificação do grupo. Presente em todo o território, através da rede de retalho dos CTT, o Banco CTT é um caso de sucesso com um portefólio completo de soluções de poupança, crédito e meios de pagamento.

De que forma a automação, a digitalização e a IA estão a influenciar o negócio e como trouxeram inovação aos CTT?

A automação, a digitalização, a inteligência artificial e a engenharia estão hoje profundamente integradas na forma como os CTT operam e inovam, sendo pilares muito presentes da transformação que a empresa tem vindo a empreender nos últimos anos. A automação permitiu aos CTT ganhar eficiência operacional: os equipamentos de sorting mais avançados passaram a ser instalados, integrados e comissionados por equipas internas, mas, mais importante do que isso, passaram a ser geridos por sistemas de apoio à decisão proprietários dos CTT, reduzindo a dependência de fornecedores externos e acelerando a capacidade de resposta às necessidades da operação. Centros operacionais equipados com tecnologia de sorting de alta capacidade reforçam o papel dos CTT como operador logístico de e‑commerce, garantindo ritmos de tratamento superiores a 140 mil encomendas por dia e sustentando o crescimento contínuo da área de Expresso e Encomendas.

E nessa área, os cacifos também são altamente distintivos…

Sim, a rede Locky, hoje com milhares de cacifos físicos e virtuais em Portugal e Espanha, funciona como um sistema totalmente integrado e inteligente, gerido por uma plataforma desenvolvida internamente e monitorizada em tempo real. Este investimento não só simplifica e melhora a experiência de cliente na entrega e devolução de encomendas, como alimenta de forma constante uma base de dados que melhora a eficiência logística e a experiência do cliente. Os próprios lockers são tecnologia proprietária dos CTT, das partes metálicas ao software, passando pela eletrónica.

A aposta na digitalização está portanto patente em vários campos, desde soluções empresariais que ajudam as empresas portuguesas a estar no digital, com a criação da sua loja online com tecnologia e ferramentas CTT, passando pela gestão documental e de BPO e em toda a relação com o cliente, através da APP, de sistemas como o MOBI e do reforço da omnicanalidade.

Centros operacionais equipados com tecnologia de sorting de alta capacidade reforçam o papel dos CTT como operador logístico de e‑commerce, garantindo ritmos de tratamento superiores a 140 mil encomendas por dia.

A aposta na inteligência artificial (IA) é também muito expressiva. Os CTT utilizam IA em múltiplas etapas da cadeia logística, desde a otimização de rotas — com modelos capazes de planear percursos em tempo quase-real, considerando tráfego, meteorologia, densidade de entregas, veículos elétricos e padrões de risco — até à previsão de picos de procura e à manutenção preditiva de equipamentos, que permite antecipar falhas antes de se tornarem problemas operacionais. A IA também potencia a qualidade e rapidez do atendimento ao cliente, como com o chatbot Helena, que já responde com voz autonomamente à maioria dos pedidos de informação sobre tracking de objetos.

Há então grandes oportunidades nesta nova revolução digital a que os CTT estão especialmente atentos?

Em conjunto, automação, digitalização e IA contribuem para o reposicionamento dos CTT como um operador logístico moderno, tecnologicamente robusto e preparado para liderar a logística de e‑commerce na Península Ibérica. Estas tecnologias aumentam eficiência, elevam a qualidade de serviço, reduzem custos, melhoram a experiência do cliente e abrem caminho a novos produtos e modelos operacionais, preparando os CTT para o futuro.

A IA, a digitalização e a automação são desafios oportunidades para empresas de todas as dimensões, sendo muito importante a criação de espaços de partilha de experiências e de projetos, como é o caso dos Cafés de CEO 2.0, promovidos pelo BRP e que funcionam como um espaço de partilha informal e de geração de confiança entre líderes de PME e CEO de grandes empresas do BRP, centrado em temas que têm impacto direto no crescimento sustentável — como boa governance, talento, digitalização e internacionalização.

Em conjunto, automação, digitalização e IA contribuem para o reposicionamento dos CTT como um operador logístico moderno, tecnologicamente robusto e preparado para liderar a logística de e‑commerce na Península Ibérica.

Quais são os maiores desafios que identifica até ao final da década e onde vê caminhos para crescer, criar mais valor e corresponder às expectativas dos stakeholders?

Os maiores desafios até ao final da década para os CTT começam, inevitavelmente, pelo Serviço Postal Universal. O atual modelo de financiamento do SPU, que não tem qualquer contribuição do Orçamento do Estado, deixará de ser viável depois de 2028. Os volumes estão a cair tão depressa que os preços se tornariam desproporcionalmente elevados para o cliente final. Temos, assim, de encontrar novas formas de financiamento. Esse é um tema que terá obrigatoriamente de ser resolvido no próximo ciclo, porque, mantendo-se o nível de serviço que o país exige, não é sustentável continuar a aumentar preços quase 10% ao ano. O âmbito do Serviço Público, os níveis de serviço e o próprio modelo de financiamento terão de ser repensados de forma responsável para responder às expectativas do Estado, dos cidadãos e dos utilizadores.

Entretanto, os CTT prosseguem num processo de transformação profunda. No futuro entregaremos sobretudo encomendas e, de vez em quando, cartas. Os CTT são hoje mais do que uma empresa de correio, são um operador logístico de comércio eletrónico e esse caminho exige investimento, tecnologia, automação e uma presença ibérica mais forte. Temos cumprido o que prometemos, crescemos em receita e margem e tornámo‑nos uma empresa mais atrativa para qualquer investidor, tendo a ação valorizado cerca de 3,5 vezes desde 2019. Lançámos ainda muito recentemente um novo programa de recompra de ações, mostrando que acreditamos na empresa e no seu potencial de valorização e crescimento.

Outro desafio, que vemos como uma oportunidade criadora de valor, é a concretização das metas que traçámos e foram anunciadas no recente Capital Markets Day, realizado em Novembro passado: sermos líderes ibéricos na logística de comércio eletrónico até 2028. A parceria estratégica com a DHL, e central para alcançar esse objetivo. Ao unirmos forças, criamos a rede de recolha e entrega mais abrangente da Península Ibérica, com uma capacidade superior a um milhão de envios por dia. Esta joint venture acelera o nosso crescimento, reforça competências internas e melhora a nossa posição como operador de e‑commerce de referência na região.

A integração ibérica com a DHL, a aquisição da Cacesa, a expansão das redes out‑of‑home, a digitalização completa da experiência do cliente, e um Banco CTT mais leve e mais focado, que combine presença física com oferta digital, são caminhos promissores de crescimento. O nosso compromisso é criar valor para todos os stakeholders: clientes, colaboradores, acionistas, as comunidades onde estamos e o Estado. E fazê‑lo com ambição, responsabilidade e uma visão muito clara do que queremos ser daqui a cinco anos.

Espero estar, então, a celebrar esses sucessos como um accionista empenhado.

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