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Mundo das ComunicaçõesNuvem vai reforçar conectividade transatlântica com quase 7 mil km de fibra entre EUA e Sines

Nuvem vai reforçar conectividade transatlântica com quase 7 mil km de fibra entre EUA e Sines

Depois do Equiano, o Nuvem, que vai ligar os EUA a Sines, marca o segundo lançamento de um cabo submarino da Google em Portugal, num projeto concebido para reforçar a resiliência da rede e capacidade de tráfego. Para 2027 já está prevista a chegada do cabo Sol aos Açores.

Como destacado por Nigel Bayliff, Diretor Sénior de Redes Submarinas Globais da Google, durante a cerimónia oficial de lançamento do Nuvem, em Lisboa, o novo cabo submarino afirma-se como o primeiro da tecnológica no Atlântico, naquele que descreve como o primeiro de muitos passos rumo a uma rede transatlântica resiliente.

Ainda no início da sessão, a importância dos cabos submarinos como infraestruturas críticas para assegurar as comunicações e serviços essenciais do mundo digital já tinha sido realçada tanto por Gonçalo Matias, ministro da Reforma do Estado, assim como a posição estratégica de Portugal, em particular de Sines, enquanto “porta de entrada atlântica da Europa”

Segundo Nigel Bayliff, o novo cabo dá continuidade ao investimento da Google nas infraestruturas críticas que servem de base à Internet, com o objetivo de criar uma rede global. No oceano Pacífico, por exemplo, a empresa conta já com uma rede de cerca de 150.000 quilómetros de fibra óptica, afirma.

A escolha dos Açores como um dos locais intermédios de acoragem reveste-se de particular importância, uma vez que vai permitir alertar entre diferentes cabos e reforçar a redundância da rede de conectividade, explica o responsável.

Alcance, fiabilidade e resiliência são apontados por Nigel Bayliff como os três pilares que orientam o desenvolvimento da rede que a Google quer construir.

“O alcance permite-nos chegar ao maior número possível de regiões do mundo, através do maior número possível de ligações, criando uma infraestrutur baseada numa rede interligada”, detalha. “É essa estrutura que traz mais resiliência”.

Em linha com Sandra Maximiano, Presidente do Conselho da ANACOM, que defendeu a necessidade de uma maior cooperação para assegurar a resiliência de uma infraestrutura tão crítica quanto os cabos submarinos, a existência de uma rede interligada “permite encaminhar o tráfego por rotas alternativas e manter essa ligação fundamental através do oceano” mesmo quando surgem acidentes, indica o responsável.

Com base no trabalho desenvolvido no projeto Equiano, a Google estabeleceu uma parceria direta com a MEO, que participa como investidora na iniciativa. De acordo com Nuno Cadima, Diretor de Operações da MEO, a participação da empresa no novo projeto, enquanto investidora e parceira nacional da tecnológica, dá continuidade à sua estratégia de apostar em “infraestruturas de longo prazo que criem valor”, tanto para os seus clientes como para o país.

Nuvem e Sol: Como vão funcionar os novos cabos submarinos?
Concebido para melhorar a resiliência da rede no Atlântico e ajudar a responder à procura crescente por serviços digitais, o Nuvem foi anunciado em 2023 e vai juntar-se à rede de cabos submarinos que liga Portugal a outras regiões do mundo, que inclui o Equiano, o EllaLink e o 2Africa.

O sistema, que deverá entrar em funcionamento em 2027, vai ter uma extensão de cerca de 6.900 quilómetros, ligando a cidade americana de Myrtle Beach (na Carolina do Sul) a Sines, com pontos de ancoragem intermédios nas Bermudas e nos Açores.

Como detalhado anteriormente pela tecnológica, a infraestrutura será constituída por 16 pares de cabos de fibra óptica, com cada um deles a ter uma capacidade projetada de 24 tbps (transporte de terabit por segundo), num total de 384 tbps.

Segundo dados partilhados pela Google em 2024, espera-se que o novo cabo submarino tenha um impacto de 500 milhões de euros na economia nacional.

O Nuvem vai ser complementado pelo cabo Sol, anunciado no ano passado, para reforçar a resiliência transatlântica. Descrito como uma infraestrutura com sistemas de interconexão territorial, o Sol vai ligar os Estados Unidos a Espanha, passando pelas Bermudas e Açores

De acordo com a tecnológica de Mountain View, quando estiver operacional, o cabo permitirá aumentar a capacidade e a segurança da sua rede, composta por 43 regiões de Google Cloud espalhadas pelo mundo, tendo como objetivo servir a procura da sua base de clientes em crescimento para serviços de cloud e IA nos Estados Unidos, Europa e outros países.

Nos Estados Unidos, o cabo será ancorado em Palm Coast, na Flórida, em parceria com a DC Blox. Já em Espanha, a Google fez uma parceria com a Telxius para criar a infraestrutura necessária para ligar o cabo à terra em Santander, seguindo-se a integração da cloud da região de Madrid à sua rede global.

Segundo a Google, o Sol, composto por 16 cabos óticos, tem o potencial de oferecer redundância ao Nuvem, para aumentar a resiliência e responder ao crescimento da procura de infraestruturas digitais em Portugal e na Europa.

SAPOTEK

 

Chegou a boa “Nuvem”… para um país que também promete “Sol” e bons investimentos
por Samuel Carvalho CEO da TelCables Europe

A largura de banda internacional deixou de ser um consumo intermédio das telecomunicações para se tornar um fator de produção, tão determinante como a energia ou a logística

Portugal habituou-se a medir a sua atratividade em noites de hotel e camas turísticas. Convém começar a medi-la também em terabits. A amarração do projecto “Nuvem” nos Açores e em Sines, o primeiro cabo submarino a ligar diretamente o Portugal aos Estados Unidos da América, com cerca de sete mil quilómetros, dezasseis pares de fibra ótica e 384 terabits por segundo de capacidade é, antes de tudo, um acontecimento económico.

E, por feliz ironia da nomenclatura, o próximo sistema a chegar, no caso, aos Açores chama-se “Sol”.

Raramente a metáfora nacional foi tão literal: o país que sempre vendeu clima passa a vender posição atlântica e largura de banda para alimentar de internet Data Centers em Portugal e na Europa. A razão pela qual isto interessa é simples: praticamente todo o tráfego intercontinental de dados pagamentos, mercados de capitais, comércio eletrónico, computação em nuvem (lá está!), viaja por fibras pousadas no fundo do oceano.

A largura de banda internacional deixou de ser um consumo intermédio das telecomunicações para se tornar um fator de produção, tão determinante como a energia ou a logística. E a literatura económica já a quantifica: estudos internacionais estimam que cada aumento de 1% na capacidade internacional instalada gera um acréscimo mensurável, entre 0,04% e 0,08%, na procura de banda larga a jusante, com efeito de arrasto sobre as receitas de todo o sector digital. Para Portugal, os modelos de impacto aplicados às redes de cabos da Google apontam para mais de 500 milhões de euros por ano de contributo para o PIB.

Importa perceber onde nasce, de facto, essa receita, porque o cabo em si é a parcela mais pequena da conta. Um sistema transatlântico custa algumas centenas de milhões de dólares e emprega diretamente poucas dezenas de pessoas: estações de amarração, operação e manutenção, backhaul terrestre. O valor está no que o cabo desbloqueia. A primeira camada é o investimento em data centers e regiões de cloud, que se mede em milhares de milhões de capex (gastos com bens de capital), contratos de energia de longo prazo, construção e receita fiscal, sendo que Sines tem hoje em carteira projetos à escala do gigawatt.

A segunda é a economia digital exportadora: serviços de computação, inteligência artificial, indústrias sensíveis à latência, da finança ao gaming, que se localizam onde os dados chegam primeiro. É esta cascata que sustenta a projeção, avançada pela diplomacia norte-americana, de mais de 40 mil milhões de dólares de investimento tecnológico dos EUA em Portugal até 2031, o equivalente a vários anos de investimento direto estrangeiro concentrados num único sector.

Quem trabalha nesta indústria há alguns anos já viu esta cascata a funcionar. Em Fortaleza, onde a Angola Cables amarrou o SACS (2018) e participou no Monet (2016) enquanto primeiro operador consorciado com a Google nos cabos submarinos, uma capital turística transformou-se em menos de uma década no principal hub de cabos submarinos da América Latina com 16 cabos ativos. Atrás dos cabos vieram os data centers, os pontos de troca de tráfego, os operadores internacionais e milhares de empregos qualificados que antes não existiam.

A lição é dupla: o efeito multiplicador da conectividade sobre a economia regional é real e está documentado, hoje Fortaleza com o chamado Hub Digital do Ceará depois dos cabos e com data centers anunciados para Inteligência Artificial projeta um investimento entre 107,8 e 147,1 biliões de dólares no mesmo patamar de investimentos dos maiores mercados de hyperscale do mundo, como a Virgínia do Norte (EUA) e Singapura.

As contas portuguesas têm, além disso, uma particularidade favorável. Os grandes mercados europeus de data centers em Frankfurt, Londres, Amesterdão e Paris estão saturados de rede elétrica e de solo. Sines oferece exatamente o que lhes falta: amarração direta às Américas, porto de águas profundas, terreno industrial e eletricidade de origem quase totalmente renovável com um preço praticamente imbatível na Europa para escalar computação de IA, num momento em que a energia é o principal custo operacional de um data center da era da inteligência artificial.

Se o turismo transformou o sol em receita de exportação, a nuvem da conectividade pode transformar a mesma geografia em exportação de serviços digitais, com a diferença de que estes empregos pagam salários muito acima da média nacional e não conhecem época baixa.

Impõe-se, ainda assim, a sobriedade de quem sabe que projeções não são faturas. Nenhum país enriqueceu por ser atravessado por dados; enriquece quem consegue que os dados parem aqui e que aqui sejam processados, armazenados e transformados em serviços com valor que passamos a sediar, utilizar e exportar.

A diferença entre um ponto de amarração e uma economia digital chama-se ecossistema, e o ecossistema decide-se em terra: licenciamento com prazos competitivos, capacidade energética e de rede elétrica contratável, formação de talento técnico, incentivos fiscais, para que as grandes empresas criem a sua sede na porta da Europa. Marselha já é o maior porto digital mediterrânico, Madrid e Génova disputam a mesma corrida e não estão à nossa espera.

Sempre que participo em fóruns nesta indústria costumo dizer que a conectividade precede a computação: primeiro chegam os cabos, depois os data centers, a gravidade de conteúdos e dado, depois os modelos, os serviços e os empregos.

Portugal acaba de garantir a primeira camada, com uma vantagem geográfica que ninguém pode copiar. O “Nuvem” chegou; o “Sol” vem a caminho. A parte difícil é toda nossa: garantir que o valor não se limita a atravessar-nos à velocidade da luz.

Expresso

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