O modelo de linguagem AMÁLIA acaba de ser oficialmente apresentado como o “primeiro modelo português de Ia, desenvolvido com foco em português e em código aberto”. Gonçalo Matias destaca o cumprimento de metas definidas há 18 meses.
Depois de ter sido anunciado no palco do Web Summit pelo Primeiro Ministro, Luis Montenegro em 2024, o AMÁLIA, acrónimo de Assistente Multimodal Automático de Linguagem com Inteligência Artificial, fica hoje disponível “para todo o ecossistema”. Na apresentação oficial que está a decorrer em Lisboa, no Técnico Innovation Center, e que o TEK Notícias está a acompanhar, estão a ser destacados os casos de uso mas também o impacto do modelo aberto e a estratégia para pôr o AMÁLIA em prática, assim como os próximos passos da evolução do LLM português.
Nas primeiras palavras o ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, destacou a importância dos investimentos em ciência que permitiram concretizar este projeto, suportado num consórcio de universidades portuguesas.
Também Gonçalo Matias, ministro adjunto e da Reforma do Estado reconheceu que Portugal não podia ficar de fora desta transformação da inteligência Artificial, sublinhando que hoje se cumpre uma etapa decisiva e afirmando que “o Amália representa muito mais do que um projeto científico, é uma opção estratégica para Portugal”.
O investimento no desenvolvimento inicial foi de 5,5 milhões de euros, financiado pelo PRR e a nova fase, prevista até 2027, deve contar com um investimento adicional de “1,5 milhões de euros para a evolução do modelo e infraestrutura soberana”, refere um comunicado.
O ministro lembrou ainda que o projeto foi inicialmente liderado pela ministra Margarida Balseiro Lopes e que cumpriu as metas de lançamento no espaço de 18 meses, que muitos duvidavam que seria possível.
Luis Montenegro, na intervenção final da apresentação, admitiu também que o anúncio que foi feito em 2024 foi contestado e que ele próprio teve dúvidas iniciais sobre se estaria a ser demasiado optimista, questionando os ministros e a equipa de projeto sobre a sua exequibilidade. A meta de lançamento foi cumprida e o Primeiro Ministro prometeu que vai continuar a investir muito neste projeto e que está confiante de que se vai “conseguir os resultados pretendidos de competitividade e de capacitação”.
Educação, Museus, Ciência e Media nos primeiros casos de uso
Coube a Manuel Dias, CTO do Estado, partilhar mais detalhes do AMÁLIA e da forma como vai ser colocado em prática e disponibilizado à Administração Pública, Empresas e Cidadãos, integrado em serviços e portais existentes.
“O AMÁLIA não nasceu para ficar no laboratório”, afirmou, defendendo que está preparado para ser usado. Com 9 mil milhões de parâmetros, o modelo foi desenvolvido a partir do EuroLLM-9B por um consórcio português que envolve cinco universidades (Universidade NOVA de Lisboa, Instituto Superior Técnico, Universidade de Coimbra, Universidade do Porto, Universidade do Minho) e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Arquivo.pt/FCCN), e contou com a participação de mais de 60 investigadores. Agora já está a ser preparada a próxima fase de desenvolvimento.
Na comunicação do Assistente Multimodal Automático de Linguagem com Inteligência Artificial (acrónimo de AMÁLIA), a designação perde o acento no Á e passa a designar-se AMALIA.
Embora tenha começado como um modelo focado no texto, o AMÁLIA é atualmente um modelo multimodal, com capacidade de interpretar fala e imagem, componentes que foram desenvolvidos adicionalmente e que alargam a sua capacidade.
O modelo de visão e linguagem adiciona ao modelo AMALIA 9B capacidades de análise de imagem, como descrição de imagens, diálogo sobre conteúdo visual, reconhecimento de texto e processamento de documentos escritos e foi desenvolvido pela Universidade Nova de Lisboa e o Instituto Superior Técnico.
O modelo de fala e linguagem, desenvolvido por uma equipa do Instituto Superior Técnico, garante capacidades de processamento de áudio de fala em português europeu, destinando-se a aplicações que necessitem de receber pedidos ou processar dados em língua falada.
Os três modelos estão disponíveis no HuggingFace do projeto AMALIA desde ontem à noite e podem ser usados de forma aberta. Durante a apresentação ficámos a saber que já há uma aplicação que foi desenvolvida pela Priberam usando o AMÁLIA, e da qual teremos em breve mais novidades.
Entre os casos de utilização que estão previstos, o Portal dos Museus, lançado, foi o exemplo usado para uma live demo por Manuel Dias para mostrar o potencial do AMÁLIA como guia virtual e apoio na navegação no site. Em breve também o portal Gov.pt e alguns projetos, como o LicencIA, vão contar também com a ajuda do AMÀLIA.
O portal ia.gov, o Portal de Inteligência Artificial da Administração Pública Portuguesa, também disponibilizado, congrega a informação sobre o modelo e os projetos de IA que estão a ser desenvolvidos na Administração Pública, indicando que existem 32 iniciativas da Agenda Nacional de IA (ANIA) e 400 milhões de euros investidos.
No final da apresentação foram mostrados em detalhe as demonstrações de projetos que estão a usar o AMÁLIA, como o Portal dos Museus, o Torga desenvolvido por uma equipa da Universidade de Coimbra e uma demo da integração do AMÁLIA no assistente virtual do portal Gov.pt, de forma complementar ao GPT-4o mini que é atualmente utilizado no portal gerido pela ARTE.
Recorde-se que para o projeto não está prevista a criação de uma interface ao estilo do ChatGPT, com o modelo a ser usado apenas em serviços e aplicações da Administração Pública ou por empresas e cidadãos como um componente de uma aplicação.
Próximos passos: de assistente a agente
“O dia de hoje é visto como dia 1 do AMÁLIA, mas já está a ser preparada a evolução do modelo. “O que queremos no próximo passo é que o AMÁLIA possa agir, fazer tarefas”, explica Manuel Dias, adiantando que para além da agentificação se pretende também preparar o modelo para ter mais capacidade, e contexto alargado.
São evoluções que estão planeadas para o desenvolvimento técnico e que trazem a capacidade de agentificação que os grandes LLM já integram, permitindo executar tarefas de forma “segura e supervisionada”, como explica o CTO do Estado. Em termos de capacidade o modelo vai também poder realizar tarefas mais complexas, com uma atualização para 22 mil milhões de parâmetros, e um contexto mais alargado, processando informação extensa e respondendo com mais precisão.
Está também a ser preparada a integração nos serviços públicos, com o processo de licenciamento LicencIA para reduzir tempos médios de análise, a app gov.pt para apoiar os cidadãos na realização de serviços públicos e noutros processos internos para agilizar tarefas como contratação pública, análise jurídica e avaliação de candidaturas.
Para esta nova fase está previsto o investimento de mais 1,5 milhões de euros para evolução do modelo e infraestrutura soberana.
AMÁLIA já responde diretamente a perguntas com interface criada pela LayerX
O modelo de IA português foi apresentado esta semana pelo Governo mas falta-lhe uma interface para acesso direto. A LayerX decidiu tornar o AMÁLIA mais acessível a quem não tem conhecimento técnico e criou um chat para qualquer pessoa poder falar com o LLM.
Ao longo do desenvolvimento do AMÁLIA, acrónimo de Assistente Multimodal Automático de Linguagem com Inteligência Artificial, foi sendo explicado que o modelo não teria um interface semelhante ao ChatGPT e a outros LLMs, como o Claude ou o Gemini, e que funcionaria como um componente a integrar em serviços e aplicações, mas aparentemente isso não ficou claro para todas as pessoas. Com o lançamento do modelo para “todo o ecossistema”, que aconteceu esta semana, surgiram novas dúvidas sobre como usar o AMÁLIA para colocar perguntas.
Em menos de 24 horas depois do lançamento do AMÁLIA a LayerX, o estúdio de IA portuense, desenvolveu e colocou em produção uma solução, com uma interface pública que permite a qualquer pessoa interagir com o modelo português, sem precisar de competências técnicas ou infraestrutura própria.
“Sentimos que faltava a peça que aproxima o modelo das pessoas. A nossa motivação foi precisamente essa: construir uma interface à volta do modelo, no formato de conversa que toda a gente já conhece, onde qualquer pessoa possa escrever, testar, explorar e aprender com o AMÁLIA, e receber respostas de imediato”, explicou ao TEK Mário Alves, CEO da LayerX.
“Queríamos que o AMÁLIA deixasse de ser algo acessível apenas a quem percebe de tecnologia e passasse a estar ao alcance de qualquer português […] É a nossa forma de contribuir para o esforço nacional”, sublinha o CEO do estúdio de IA portuense
O AMÁLIA está disponível em código aberto, com licença Apache 2.0, para ser usado em integração com outros serviços e aplicações, e durante a apresentação do modelo foram mostrados alguns casos de uso em projetos académicos ou da administração pública, como o portal Gov.pt, por exemplo. A Priberam também tratou rapidamente de desenvolver uma aplicação de chat, que não disponibilizou publicamente, e integrar o AMÁLIA em alguns dos seus produtos, como o plain X e o dicionário.
Mas embora esteja “aberto ao ecossistema”, o modelo de IA português apoiado pelo Governo e desenvolvido por um consórcio de cinco universidades com fundos do PRR, exige conhecimentos e capacidade técnica para instalação e execução local, o que limita o acesso à grande maioria de empresas e cidadãos. Aqui a LayerX decidiu usar o seu conhecimento e experiência no desenvolvimento e implementação de soluções de Inteligência Artificial para empresas e permitir a qualquer pessoa ultrapassar esta barreira de utilização.
“Lançámos a interface em menos de 24 horas após o lançamento do AMÁLIA. Está, portanto, a ser usada em contexto real, qualquer pessoa, sem necessidade de conhecimentos técnicos: basta abrir e começar a conversar. Continuamos a acompanhá‑la e a melhorá‑la com base nessa utilização”, garante Mário Alves ao TEK.
Um chat para conversar com o AMÁLIA
O acesso ao AMÁLIA já está disponível na infraestrutura da LayerX, com uma interface de chat que torna o modelo fácil de usar, sem configurações adicionais. A ferramenta é gratuita e não requer registo nas primeiras interações, mas depois é preciso confirmar email, um passo que Mário Alves admite que teve de ser contemplado para equilibrar os limites de utilização.
No desenvolvimento o estúdio de IA encontrou alguns desafios, “a maioria ligada a fazer uma coisa aparentemente simples, “escrever e receber resposta”, funcionar de forma fiável para muita gente ao mesmo tempo”.
O CEO da LayerX explica que um modelo de linguagem corre num número limitado de “lugares” de geração em simultâneo e que num lançamento com muita atenção, milhares de pessoas podem chegar ao mesmo tempo. “Tivemos de construir um sistema de gestão de concorrência com fila de espera e distribuição de carga, para que, em vez de a aplicação bloquear, as pessoas sejam atendidas por ordem e o serviço se mantenha estável mesmo sob pressão“, sublinha.
O modelo está a usar a infraestrutura da LayerX e como o poder de computação é finito foi preciso equilibrar o acesso totalmente aberto, sem conta, com os limites de utilização justa e a possibilidade de guardar a conversa. A infraestrutura e a disponibilidade foram também desafios, de forma a garantir que a plataforma está online, rápida e acessível a partir de um endereço público.
“O nosso papel é disponibilizar a interface; as respostas são sempre geradas pelo AMÁLIA“, explica, indicando que está a ser usado o modelo AMALIA-9B-0626-SFT disponibilizado pelo consórcio. “O que criámos é, no fundo, uma camada de interação, um wrapper, à volta de um modelo que já existe e que foi apresentado publicamente com esse nome: a Amália. Não fomos nós que criámos nem batizámos a Amália, limitámo‑nos a dar uma forma simples de as pessoas poderem falar com um modelo que já se chama assim”, adianta ainda Mário Alves.
Questionado sobre os custos de manter esta infraestrutura, garante que quer manter o acesso livre e gratuito. “A questão do custo não se coloca da forma habitual, porque não recorremos a nenhum serviço externo nem a APIs pagas por token: a Amália corre localmente, numa NVIDIA DGX Spark. As respostas são geradas na própria máquina, que é nossa”.
Apesar do trabalho de desenvolvimento para garantirem a disponibilidade, há limites da capacidade das máquinas e por isso foi criado um sistema de gestão de carga, com controlo de concorrência e fila de espera. “Em momentos de maior procura, em vez de a aplicação falhar, os pedidos são atendidos por ordem; e se a procura ultrapassar pontualmente a capacidade disponível, o sistema lida com isso de forma controlada, em vez de simplesmente deixar de responder”, explica o CEO da LayerX ao TEK.
A interface pública do AMÁLIA criada pela LayerX está disponível para quem quiser experimentar aqui
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