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Mundo das ComunicaçõesAngola aposta no espaço para reforçar soberania digital

Angola aposta no espaço para reforçar soberania digital

Angola quer transformar o investimento no espaço numa ferramenta de soberania digital, desenvolvimento económico e formação. Em Paris, onde participa na Cimeira Internacional do Espaço, o ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, Mário Oliveira, defendeu a criação de capacidades nacionais, sem abdicar da cooperação, e destacou as aplicações dos satélites nas comunicações, agricultura e protecção dos oceanos.

Angola chegou à Cimeira Internacional do Espaço, em Paris, com uma ambição que ultrapassa a presença de um satélite em órbita. O objectivo, segundo o ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, Mário Oliveira, é adquirir progressivamente conhecimento, infra-estruturas e recursos humanos que permitam a Angola reduzir dependências e construir aquilo a que Luanda chama “soberania digital”.

“Temos um programa espacial nacional, temos um satélite de comunicações em órbita e estamos a trabalhar num satélite de observação da Terra”, explicou Mário Oliveira. “Estamos a trabalhar no sentido de criarmos capacidades próprias e de interagir com aquilo que se passa um pouco por todo o mundo, particularmente em África.”

O ministro refere-se ao ANGOSAT-2, utilizado nas telecomunicações, e ao futuro ANGEO-1, primeiro satélite angolano dedicado à observação da Terra. O projecto ANGEO-1 arrancou oficialmente em Março nas instalações da Airbus Defence and Space, em Toulouse, e integra a estratégia angolana de reforço da capacidade tecnológica nacional.

Para o ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, porém, soberania digital não significa produzir tudo dentro das fronteiras. Significa sobretudo adquirir capacidade para dominar e gerir as tecnologias utilizadas pelo país. “Passa não só pelo ecossistema de satélites, mas também por todo o ecossistema de comunicações, aplicações e formação”, afirma.

É precisamente na formação que o governante coloca uma das maiores apostas. “Estamos fortemente empenhados em formar jovens angolanos para que possam ser os angolanos a gerir e a criar plataformas”, sublinha. A intenção é diminuir gradualmente uma dependência tecnológica que reconhece existir. Num território extenso e com populações dispersas, os satélites e a fibra óptica são apresentados como instrumentos para levar comunicações a regiões onde a instalação de redes convencionais é pouco atractiva comercialmente.

O representante angolano destaca projectos destinados a aumentar a cobertura móvel, levar Internet a localidades remotas e equipar escolas públicas com salas de informática. “Temos estado a levar Internet e comunicações a zonas recônditas do país, a escolas públicas situadas nas vilas e nas aldeias”, afirma.

A tecnologia espacial é também associada à diversificação económica. “O Governo tem estado a apostar muito no agronegócio, na agro-indústria e na agricultura”, lembra o ministro. “A agricultura hoje já não se faz como nos anos 60 e 70. Exige muita tecnologia, exige acesso à Internet.” É nesse contexto que o ministro angolano vê os investimentos em satélites e fibra óptica como infra-estruturas que podem servir também os produtores agrícolas, dando-lhes acesso a comunicações, informação e serviços digitais. “Temos estado a levar essas facilidades aos nossos empresários agrícolas”, explica.

A participação em Paris serve para procurar conhecimento fora do país. Angola tem contactos previstos com diferentes actores do sector, entre os quais a Agência Espacial Africana, a Agência Espacial Portuguesa e a Airbus Defence and Space. Para o ministro, não se trata de substituir incapacidade interna por soluções estrangeiras, mas de acelerar a aprendizagem.

“O ecossistema das tecnologias exige troca de experiências. Nós começámos o nosso programa espacial há relativamente pouco tempo”, afirma. No plano africano, considera que a criação da Agência Espacial Africana oferece uma oportunidade adicional: “África tem estado junta à procura do seu espaço no ecossistema de satélites.”

Com Portugal, Mário Oliveira destaca a relação entre as respectivas estruturas espaciais. “Temos uma boa relação ao nível do nosso Gabinete de Gestão do Programa Espacial e da Agência Espacial Portuguesa. Sempre que podemos estar juntos, conversar sobre as nossas ideias, sobre os nossos projectos e sobre aquilo que pode ser o intercâmbio entre nós, essas oportunidades são bem-vindas.”

A França ocupa também uma posição importante. É em parceria com a Airbus que está a ser desenvolvido o ANGEO-1, e jovens angolanos deverão deslocar-se para formação especializada. “Está a chegar, nos próximos dias, uma equipa de jovens angolanos que vai fazer mestrado e formação ao nível dos satélites”, anunciou o ministro.

O objectivo é fazer com que o investimento em equipamentos seja acompanhado pela criação de conhecimento dentro do país. “Sem formação podemos fazer todos os programas que quisermos”, mas será difícil assegurar a sustentabilidade, reconhece. Angola pretende, por isso, avançar também para formação especializada no ensino superior nacional.

“Estamos a preparar-nos para, juntamente com o Ministério do Ensino Superior, podermos ter em Angola uma formação específica nesta matéria”, adianta. “Temos grandes ambições. É para isso que estamos aqui, junto dos melhores e dos maiores.”

A estratégia estende-se agora também ao Atlântico. Angola assinou durante a cimeira a adesão à iniciativa Space4Ocean, que procura utilizar tecnologias e dados espaciais na protecção dos mares e na exploração sustentável dos recursos oceânicos. “Temos uma costa extensa e hoje falamos muito da economia azul no país”, explica. A adesão vai permitir, segundo o governante, conhecer tecnologias já utilizadas por outros Estados “em defesa do mar, da costa e da própria economia marinha” e integrá-las no trabalho que Angola desenvolve nesta área.

A Cimeira Internacional do Espaço decorre a 9 e 10 de Setembro no Grand Palais, em Paris, reunindo responsáveis políticos, agências, cientistas, astronautas e empresas de dezenas de países para discutir a transformação de um sector que adquiriu uma dimensão económica e estratégica crescente.

Fonte: Rfi

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